Salvemos a clínica
Manifesto pelas práticas e formações clínicas
Tradução Mirian Giannella.
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http://www.sauvons-la-clinique.org/
Petição aberta aos profissionais, instituições e cidadãos,
Após o desaparecimento da psicopatologia e da psicanálise da formação dos psiquiatras em pró de variantes neurobiológicas e comportamentalistas, é a formação dos psicólogos clínicos que hoje está no alvo das instâncias de habilitação da formação. Há vários anos, os universitários que se dedicam a essa formação vêem ampliar no aparelho do Estado a vontade de dominação dos partícipes da eliminação da psicanálise e da psicopatologia, de todos os níveis das organizações qualificadoras de ensino e pesquisa. A nova configuração que emergiu recentemente não deixa mais dúvida sobre essa vontade que não mais se mascara. É a última etapa de uma corrida contra o relógio cujo fim, em breve, se torna previsível. Ao mesmo tempo, nas instituições de tratamento, constatamos que a presença da psicanálise é o campo de uma luta na qual os simulacros administrativos, a engenharia da avaliação, a medicalização sistemática e exclusiva, os dispositivos de isolamento dos sintomas e de seu tratamento expeditivo caçam regularmente a clínica da subjetividade. Aqui e lá, assistimos freqüentemente aos desmoronamentos locais que resultam de estratégias de assédio e esgotamento das equipes, ou neutralização violenta por ingestão ou dispersão. A psicanálise não lida apenas com detratores, mas com uma convergência de processos de demolição. Não é mais o tempo de sinais assassinos, mas de atos e máquinas que avançam com as valas abertas.
Diante de tal situação, os praticantes nas instituições de tratamento psíquico, e os universitários que formam as gerações futuras e mantém a presença existente da psicanálise nas instituições de pesquisa pública devem fazer convergir suas resistências e passar à invenção ofensiva. Não podem mais se contentar em contra-atacar a cada golpe e no isolamento as perfurações e escavações de seus terrenos. Não há mais crise, mas circuitos integrados de situações limites. A ferocidade industrial dos aparelhos tem nomes: despistagem precoce, desvios de comportamento, hereditariedade genética, fatores de risco, fatores de prognósticos, isolamento dos sintomas, co-morbidade, condicionamento do comportamento, índice de impulsividade, reeducação psicoterapêutica, timoregulador, investigação, avaliação, segurança psíquica, etc. A captura das populações vulneráveis reduzidas ao uso da sua infelicidade amplia-se cada dia mais. A estandardização dos fracassos da condição humana em uma nomenclatura das deficiências habita doravante as casas sanitárias. A desestruturação social é votada à apuração policial ou mascarada pelos kits de patologia dos comportamentos. As logomancias investem-se em velar a massificação do humano e a mercantilização do vivente. Aceitaremos perambular entre “os escombros do futuro”?
Num certo momento, face ao que acontece, a recusa que se limita à expressão crítica é vã. Apenas a denúncia dos inimigos é derrisória. Os lamentos nostálgicos pela restauração do mundo de ontem dá dó. O jargão do mal estar na cultura é extensamente usado. Temos, todos, consciência que estamos num movimento extremo dos tempos, do que se chama mudança dos tempos. O que significa que não se trata de aberrações ou de desvios a corrigir, mas da subordinação do sofrimento e do bem-estar psíquico às novas representações e dispositivos de governo nos quais a psicanálise seria apenas residual ou nebulosa. A porosidade da esfera política a esses representantes, a influência que sofre por grupos interconectados de uma voracidade utilitária ingênua, indicam suficientemente que a solução não virá dos governantes que contribuíram para essa evolução.
É preciso então a união devido à gravidade da situação para responder a esse desafio da passagem de um tempo a outro. A recusa rigorosa e determinada, aquela que torna solidário, passa por compartilhar análises que explorem os desregramentos e as combinações emergentes, tornando comuns ações e experiências através de novos pensamentos de resistência. Pela criação de um coletivo que permita fazer obstáculo à política de liquidação da clínica nas instituições de tratamento e formação.
Enquanto praticantes, formadores, pesquisadores e universitários apelamos, num primeiro tempo, nossos colegas a juntar suas assinaturas a esse Manifesto pela convergência de resistências.
Propomos esboçar a preparação dos Estados Gerais da Clínica através de uma primeira reunião que terá lugar em Paris, sábado 30 de junho de 2007, e que será acolhida pelo Seminário Inter-Universitário Europeu de Ensino e Pesquisa em Psicopatologia e Psicanálise (SIUEERPP) [Séminaire Inter-Universitaire Européen d'Enseignement et de Recherche en Psychopathologie et Psychanalyse (SIUEERPP)].
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