Vamos salvar a clínica : a clínica que salva
Jornada na Salpêtrière
Primeiro, a forma: o anfiteatro Charcot cheio, os participantes se sucederam, 7 minutos no máximo para cada um. Desfile. Cada um então foi ao essencial. Há uma certa urgência em dizer. O tempo do desenvolvimento virá depois. A palavra, aqui, se faz ato. Ato político. Toma-se a palavra como se toma o poder?
Em seguida, o conteúdo: impossível ser exaustivo, difícil até de ser fiel ao que se disse na Jornada. Entretanto, trata-se mais de repetir ou de elaborar ao rememorar?
O que resta então?
Algumas idéias fortes que tento retraçar aqui, senão a letra, ao menos o espírito. Um relatório é subjetivo, forçosamente subjetivo, uma vez que emana do sujeito. Relatório, realmente? Não: testemunho, e eis-nos em cheio no tema e na questão do sujeito (sic). Em que se reconhece um clínico: Nos seus relatórios? Na avaliação “objetiva” que será feita? Na sua fidelidade ao dogma?
Não: na sua maneira de testemunhar a sua prática. Há aí algo que não engana, como a angústia. Cada um, nessa jornada, veio então, não expor, mas testemunhar uma situação, a da clínica psicopatológica e do que a ameaça.
Para começar, se pode haver um fio diretor dessa jornada, talvez se encontre numa mudança de perspectiva. Para resumir num traço: não é a psicanálise enquanto tal que está ameaçada; é pior que isto, são as condições que garantem a sua pertinência e sua operacionalidade.
A análise e a crítica epistemológica se devem continuar vigorosas (principalmente face à avaliação e à ideologia da norma), não devem mais nos poupar da análise política. E a mudança encontra-se com certeza aí, pois não há política sem ação política, salvo cair no discurso... político.
Mas, perguntaremos, o que é então uma ação política, no campo da psicopatologia e da psicanálise? A tomada de poder? Do que, por quem, pra quê? Seriamente...
A ação política é a que permite criar e manter as condições de possibilidade da clínica e de sua transmissão. Dito de outro modo, a instalação e a manutenção dos dispositivos de subjetivação, de transmissão e de formação, contra a invasão de dispositivos de objetivação e de normalização. E isto, no terreno das práticas clínicas como na universidade e em outros lugares.
Como foi dito nesta Jornada, isso passa não apenas por uma análise das forças em presença, mas também, por uma relação de força. A expressão está lançada: uma relação de força... vocabulário estranho aos psicanalistas. Por isso mesmo… O dispositivo analítico não é ele próprio o lugar da emergência de uma certa relação de forças, forças pulsionais em presença, e o rigor do enquadre analítico, a garantia da subjetivação em obra, não seria a marca, se não de uma relação de força ao menos da determinação de uma exigência ética?
A relação de força nos é assim tão estranha? À condição de não reduzí-la a uma luta de puro prestígio que penda para a ideologia do “eu forte”. A primeira relação de força não está em nós mesmos: não ceder sobre seu desejo...
Não há poder sem contra-poder, e então não há dispositivo sem contra-dispositivo. O dispositivo analítico, qualquer que seja a sua forma, o seu lugar, não é então, o primeiro ato político, sempre recomeçado, da psicanálise?
Considerando, justamente, a análise das forças em presença, esta Jornada foi, de início, um estado dos lugares, rápido e sucinto, mas tocando no essencial.
No plano internacional, a situação deixa com certeza planar a preocupação : desvio etológico da psicanálise de um lado, submissão livremente consentida às exigências dos reguladores do outro... A França parece ainda bem com a vila gaulesa, mas por quanto tempo?
De fato, a constatação está clara: a asfixia da psicanálise na universidade passa por alguns mecanismos.
No plano nacional, sabemos, os critérios de qualificação são formais e quantitativos. As revistas «cientificamente corretas » (i.e. qualificadoras) pertencem majoritariamente ao painel usual do pensamento biomédico, estatística e quantitativa assim como uma psicologia instrumental. Para excluir definitivamente a psicanálise da universidade, o princípio é muito simples: basta desqualificar as revistas que publicam trabalhos de psicanálise e fim.
Mas, mesmo para um candidato que passe pelo filtro qualificador do Conselho Nacional das Universidades, sobra a feira das comissões de especialistas.
São as próprias condições de possibilidade do ensino e pesquisa referentes à psicanálise que estão ameaçadas através desse mecanismo de filtragem.
Sobre isso foi lembrado como, na França, a psicanálise foi excluída da psiquiatria, por não ter sido verdadeiramente e coletivamente defendida. Daí a urgência do engajamento para que não aconteça a mesma coisa nos departamentos de psicologia na universidade.
Os próprios estudantes fizeram a conta e vieram nos dizer: o desaparecimento puro e simples, às vezes no meio do ano, de alguns cursos ou de equipes de pesquisa, que dá frio na espinha.
Mas eles nos dizem também outra coisa, e nos deixam uma questão, central: o que é um psicólogo de orientação analítica? O que isso quer dizer? E como um psicanalista, na universidade, contribui para a formação de psicólogos sem vocação, salvo caso a caso, (e por outras vias) para se tornar analista?
De fato, se o psicólogo se torna psicanalista, é antes enquanto sujeito (e não enquanto psicólogo) e por outra via. Mas se o psicanalista se autoriza por si mesmo e alguns outros, por que então se autorizaria o psicólogo?
O tema da avaliação apareceu também como um dos elementos desta Jornada. A idéia proposta por alguns e retomada por outros poderia se resumir assim: não se submeter, não se desviar, enfrentar.
A avaliação quantitativa, como elemento de um dispositivo de normalização e de controle, concerne tanto a universidade quanto a clínica. Os princípios em obra são os mesmos, fundamentalmente, de um lado como do outro: formalização, estandardização e quantificação.
A avaliação, aqui, não é o meio que se dá o clínico para dar conta e testemunhar de sua prática senão o que se dá uma certa biopolítica para fazer do clínico uma de suas engrenagens. O clínico não presta mais conta, ele dá conta.
Enfrentar a avaliação, então. Isso não passaria por saber um pouco mais sobre a verdadeira questão da qual ela é a má resposta? Enfim, foi compreendido, também, que se se trata de salvar a clínica, é justamente a partir de uma posição que faz ato do fato da clínica ser também o que salva. Mas quem salva do quê? Talvez o que salva da loucura de se crer além da clínica, e de se crer além da própria loucura.
Encontro marcado para o fim do ano na França (data na França a definir oportunamente) para começar a preparar os Estados Gerais da Clínica.
Encontro marcado para 28 de setembro (local em São Paulo a definir oportunamente) para começar a preparar os Estados Gerais da Clínica.
Fabrice LeroyMestre de Conferências em Psicopatologia (Lille 3)Psicólogo clínico.
http://www.psyapsy.org/index.php?option=com_content&task=view&id=379&Itemid=34
traduction Mirian Giannella
http://giannell.sites.uol.com.br
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