Oficina debate mal-estar na globalização
"Será que podemos dizer que existe mesmo uma subjetividade, ou nós a inventamos?". O convite à reflexão partiu da psicanalista carioca Teresa Pinheiro no segundo dia da oficina "Psicanálise e Mal-Estar na Globalização". A palestrante citou o pensador inglês Harold Bloom, para quem foi Shakespeare, na encenação de suas tragédias, o inventor da subjetividade, do homem questionador: "ser ou não ser, eis a questão".
O parecer acendeu o debate na oficina que tinha como temas a "Pedagodia da Alteridade e Cidadania" e "Identidade e Classificação do Sofrimento na Atualidade". Teresa Pinheiro questionou a validade dos estudos que consideram que a subjetividade é algo que nasce com o sujeito. Para ela, a subjetividade é, de certa forma, forjada pelo social e isso deve ser levado em conta nos estudos sobre as doenças psíquicas da atualidade.
Houve consenso entre os presentes a respeito dos prejuízos da globalização na vida psíquica dos indivíduos e a arbitrariedade das classificações dessas doenças. A onipotência do mercado no mundo de hoje não permite o espaço da falta e isso, segundo o psicanalista Eduardo Losicer, é o que está criando novas patologias. "Há um objeto para satisfazer cada tipo de desejo e isto está gerando uma saturação nas pessoas, uma vez que não há mais espaço para a fantasia, para o simbólico", disse Losicer. Os indivíduos sofrem por falta de fantasia. Na urgência de verem seus desejos satisfeitos, tal como a mídia e a sociedade exige, a pessoas tornam-se compulsivas: pelo consumo, pela informação, pela conexão, pelas drogas.
Produtividade e sofrimento
Segundo diversos participantes da oficina, a educação voltada para a competição e os modelos de qualidade empresariais que pregam a produtividade acima de tudo são fatores que contribuíram para o surgimento de novas patologias. "A sociedade de consumo só valoriza os vencedores, ou seja, aqueles que têm dinheiro", salientou o psicanalista Mário Pablo Fucks.
A realização do Fórum Social Mundial foi citada por todos os palestrantes como a primeira reação global de resistência contra o "Deus Mercado". "A globalização nesses termos está falida, mas está também colocando em xeque a teoria psicanalítica", disse Eduardo Losicer.
Mas o que de fato estariam fazendo tantos psicanalistas no FSM? "O social é o mental. Temos que cuidar do individual para mudarmos o coletivo", disse uma das analistas presentes na platéia, elogiando a iniciativa da oficina. Para quem está interessado, hoje (dia 28), às 14h, a oficina continua com o tema "Psicanálise, ciência e discurso capitalista" no auditório da Faculdade de Comunicação da UFRGS. No dia 29, a oficina será transferida para a PUCRS (prédio 40/sala 407).
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