ABERTURA
Há pouco mais de um século, um jovem médico judeu, inteligente, ambicioso, de pouca fortuna colocava-se questões cujas respostas iriam ter muitas repercussões sobre seus contemporâneos. Seu primeiro objetivo era o de ganhar a vida, abrir um consultório e encontrar uma clientela para enfim poder se casar. Como todo homem jovem versado no domínio da pesquisa, ele sonhava com a glória, com grandes descobertas. Seu trabalho no âmbito da neurobiologia, interessante e inovador não havia para ele aberto tantas portas quanto poderia esperar. A questão da correspondência anatomo-clínica que nutrira suas pesquisas se confrontava com as questões levantadas por seus pacientes para os quais esta correspondência não existia. Na França, duas " escolas " interrogavam, especialmente graças à hipnose, esta dificuldade epistemológica. A escola de Nancy arriscava-se a questionar os hipnotisadores, não-médicos. Em Paris, o professor Jean-Marie Charcot, cuja celebridade repousava sobre várias descobertas importantes no campo da neurologia, interessava-se, ele também, às manifestações provocadas em algumas pacientes hospitalizadas na Salpêtrière e catalogadas como " histéricas ". Essas pacientes apresentavam sintomas - especialmente paralisias que não correspondiam ao que se conhecia de anatomia e fisiologia. Elas reviviam sob hipnose cenas de caráter sexual. Foi dando o salto que passa do " braço " enquanto descrito em termos anatômicos, ao braço enquanto representação imaginária inscrita na linguagem, que Freud, sem abandonar a questão da correspondência anatomo-clínica, se aventura então numa outra via, a de uma palavra que se trata não apenas de ouvir mas de escutar. Conscientemente ou não, Freud procura também se conhecer a si mesmo e se confronta com os enigmas de sua própria história. Este procedimento ganhará toda sua dimensão no decorrer das trocas epistolares e no momento do encontro com um outro médico judeu, seu amigo Wilhem Fliess, e mais tarde, quando empreenderá a análise de seus próprios sonhos. Para escutar os pacientes falando o dia inteiro, foi talvez útil para o conforto dos dois protagonistas, inventar um dispositivo. Freud não suportava o olhar de seus pacientes no decorrer de longas horas de entrevistas que tinha com eles. Ao deitá-los em um divã e colocando-se atrás deles, ele privilegia a escuta em detrimento do olhar, inventa um dispositivo congruente com seu método. Anuncia a regra fundamental que convida seus pacientes a dizer o que lhes vem à cabeça.Bem depressa encontra um certo número de questões:
- a questão da realidade dos fatos contados e entre os relatos que escuta, o problema ligado à veracidade e ao impacto dos atos de sedução sexual cometidos, segundo o relato de suas pacientes, na primeira infância por um adulto, quase sempre um membro da família próxima, em particular o pai. Freud elabora então uma série de avanços que problematizam esta questão do traumatismo e desembocam na teoria do fantasma que enfatiza a importância do desejo do sujeito na memorização de sua história infantil.
- a questão do laço que se dá entre analista e analisante no decorrer do tratamento. Ele denomina transferência este laço precisando que a transferência deve ser compreendida com referência às imagens arcaicas infantis e ser interpretada em função dos dados próprios do tratamento.
- A questão da resistência e da censura. A interpretação dada ao paciente não conduz de início a uma adesão deste. O analisante adere ao seu sintoma, defende-o de algum modo e pena para renunciar a este.
Freud ao longo de sua vida e graças ao seu trabalho construiu :
Um método para explorar o psiquismo graças ao qual lhe foi possível elaborar uma nova teoria do aparelho psíquico.
Assim como o dispositivo do tratamento revelou que este produz, nos pacientes que a ele se prestam, efeitos terapêuticos.
Após Freud, numerosos psicanalistas contribuíram para afinar, modificar, estender os campos abertos por ele, que se trate da teoria dos grupos, da pedagogia, da antropologia etc. ou no interior mesmo do campo analítico que não cessou de se expandir crianças, bebês, psicossomática etc... Homens e mulheres vindos do mundo inteiro começaram a praticar a psicanálise, colocando o problema de saber quem poderia se dizer psicanalista?
Seria apenas a adesão a uma teoria que qualificava o psicanalista? Num primeiro tempo dois princípios foram retidos: O psicanalista deve ter feito uma análise e ter experimentado em si mesmo seus efeitos, especialmente no que concerne a transferência e a resistência. Deve receber uma formação complementar e durante um certo número de anos deve poder expor suas dificuldades a um ou vários analistas mais experientes que ele.
A comunidade analítica progressivamente dotou-se de associações locais reagrupadas em âmbito internacional, de institutos de formação, de revistas nacionais e internacionais, de bibliotecas e atualmente de sites na internet... Desde Freud, um número incalculável de pacientes pelo mundo fizeram um tratamento psicanalítico. A teoria psicanalítica progrediu e enriqueceu-se com contribuições múltiplas. Ela também se tornou mais complexa a ponto de que ninguém hoje é capaz de traçar o quadro de todas as pistas exploradas, de todas as hipóteses avançadas . Não vai nada bem.
A psicanálise constantemente é tomada em debates contraditórios. Ela é denunciada por aqueles que contestam o seu fundamento sem instruir suficiente e pertinentemente seus propósitos. Ela também é objeto de múltiplos debates no seio do que se convencionou chamar talvez impropriamente de comunidade analítica. O resultado disso são conflitos onde a questão do poder não está ausente, cisões e rivalidades mais ou menos importantes. Cada cisão produz a criação de novas associações e de novas estruturas que se separam, se reagrupam, se combatem etc...
As clivagens são tais hoje que conduzem a se colocar a questão da existência desta " comunidade analítica " cujos contornos parecem bem difíceis de traçar. Freqüentemente não é nem mais possível de se restabelecer o diálogo. As palavras empregadas pelas tribos vizinhas encontraram sentidos diferentes e outras palavras de conteúdo enigmático vieram, no decorrer dos anos, ligar-se àquelas da língua comum a ponto, para o analista que deixa sua tribo, de sentir às vezes o estranho sentimento de se encontrar em uma terra estrangeira e no entanto familiar.
Nosso objetivo não é, no entanto, de elaborar uma plataforma consensual entre todos os analistas, tampouco um ilusório " esperanto ". Desejamos, em contrapartida, ajudar aos que se reúnem a nós a proceder a uma leitura problematizada dos sites que florescem doravante em toda parte com a insígnia da psicanálise, participando de nosso modo à circulação da palavra e à reafirmação da importância da psicanálise no mundo de hoje. Encontrarão igualmente um lugar onde poderão se exprimir se assim o desejarem.
Se cabe a cada analista tomado um a um responder pelo presente e pelo futuro da psicanálise, aqueles que quiserem participar na construção do site oedipe encontrarão neste, esperamos, um meio útil para essa tarefa.
![[Oedipe.org]](http://www.oedipe.org/img/oe.gif)





